Os pontapés no português que tem de deixar de dar

Os pontapés no português que tem de deixar de dar

Mariana Braga
2018-03-05
Decidimos pôr um travão num dos piores males do mundo: erros ortográficos! Se tem dúvidas quando escreve, este artigo é para si, se apenas gosta de língua portuguesa, também!

Por favor, evite estes erros!

X Não faz sentido dizer por causa que quando quer explicar alguma coisa. Aliás, não faz sentido dizer isso nunca porque está totalmente errado. A expressão correta é "porque".

As panquecas levam duzentos gramas de açúcar e não duzentas! Quando termina em "a", existe uma tendência para achar que a palavra é feminina, no entanto "grama" é masculino, por isso devemos dizer "um grama". Curioso, não é?

Ela não tem uma obcessão por gramática, tem uma obsessão! Não confunda obsessão com a palavra obcecado.

A polícia interveio nessa situação, nunca interviu. Damos-lhe uma dica infalível: divida o verbo no infinitivo em duas partes: inter + vir. O inter mantém-se e depois basta conjugar o verbo "vir". No pretérito perfeito na 3ª pessoa do singular, fica "veio", logo ao juntarmos fica "interveio".

Escrever à muito tempo é um dos erros mais chatos de sempre. O que realmente quer dizer é "há muito tempo" porque para indicar um passado deve usar o verbo haver. Caso tenha dúvidas, troque pelo verbo fazer. Por exemplo: Faz muito tempo que viajei.

X Apesar de comum, a expressão há dois anos atrás está errada. Quando queremos fazer referências temporais, basta dizermos "há dois anos" porque usar "há" e "atrás" na mesma frase torna-se redundante.

Afinal ela não tem nada haver ou a ver contigo? O verbo haver é muito associado ao existir, por isso é comum que muitas pessoas achem que não podem coexistir uma com a outra e utilizam "nada haver". Nada a ver é a forma correta e também a negativa da expressão ter a ver, que é um sinónimo de "não ter relação com".

X O que há mais por aí são placards que anunciam "Precisam-se de colaboradores." O que quem os escreve desconhece é que não se escreve assim. A forma correta é no singular: precisa-se colaboradores! Porquê? Quando há uma indeterminação do sujeito, o correto é que o verbo seja conjugado na 3.ª pessoa do singular, independentemente do objeto estar no singular ou no plural. Além disto, sempre que há uma proposição depois do pronome se (para, com, em, de, por...) não há plural.

X Devemos encarar os problemas. É desnecessário dizer que o fazemos de frente, porque se queremos enfatizar, esta não é a maneira certa, visto que já está implícito na palavra "encarar". O mesmo acontece quando diz que está a dar uma opinião pessoal. Se a opinião é sua, obviamente que é pessoal. 

Dizermos que há uma multidão de pessoas na rua é um erro. Multidão é sempre de pessoas, assim como uma alcateia é de lobos ou um arquipélago é um conjunto de ilhas. Qualquer substantivo coletivo é um pleonasmo. 

X Por favor, pare de dizer que houveram pessoas. Na verdade, houve pessoas, independentemente se foram poucas ou muitas. O verbo haver no pretérito perfeito só se usa na 3ª pessoa do singular e nunca na 3ª pessoa do plural.


Palavras que não pode confundir mais!

Senão vs Se não

Para dar a ideia de "caso não trabalhes...", o correto passa por usar a forma separada. Um truque: encaixe um sujeito no meio do "se" e do "não". Por exemplo: Se (tu) não trabalhares, não consegues juntar dinheiro. À parte disto, senão, tudo junto, pode significar mais do que; do contrário; aliás; a não ser, mas. Por exemplo: Tens de trabalhar senão (caso contrário) não consegues juntar dinheiro.

Afim vs A fim de

"A fim de" exprime a ideia de finalidade e pode ser substituída por "para". Por exemplo: Ela fez de tudo a fim de ganhar o emprego. Pode ter o sentido de "com a intenção de" ou "com vontade de". Exemplo: Ela não estava a fim de conhecê-lo. Quando queremos dizer que estamos a fim de alguém, também usamos a forma separada. Apenas juntamos o "a" a "fim", quando algo ou alguém tem afinidade com outra. Aparece, maioritariamente, no plural. Por exemplo: As duas têm ideias afins.

Descriminar vs Discriminar

Descriminar significa absolver, ou seja, o prefixo "des" indica o contrário, neste caso, tirar o crime. Discriminar significa diferenciar, separar ou distinguir, com ou sem preconceito. Não convém confundir, não é?

Ir de encontro vs Ir ao encontro

Ir ao encontro significa estar de acordo, em busca de algo e passa uma ideia de conformidade, enquanto que ir de encontro a algo tem um sentido de oposição. Pode ser mais difícil lembrar-se desta, mas não é impossível!

Descrição vs Discrição

Não confunda o verbo descrever (de descrição) com o ser discreto (de discrição).


Revelamos o truque para não cometer o pior erro de sempre!

O terrível e horroroso «fizes-te».

Por mais difícil que possa parecer, existem alguns truques que facilitam saber se uma palavra leva o famoso "tracinho" ou se se escreve tudo junto. O segredo é muito simples e passa por colocar a frase na negativa e perceber se a palavra se separa. Se assim for, fica a saber que se escreve com hífen. Vejamos os exemplos: 

- O que fizeste está errado.

- O que não fizeste está errado.

Neste caso, como a palavra não se separa, já sabemos que se escreve tudo junto.


- Eu digo-te o que fazer.

- Eu não te digo o que fazer.

Neste caso, escreve-se com hífen porque, ao colocarmos a frase na negativa, a palavra separa-se. 


Bem simples, não é? Agora já não tem desculpas para errar! Até porque, aqui entre nós, não lhe fica nada bem!